quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Os primeiros esboços violetas

Tem me impressionado muito a confusão e o mal estar que os termos feminista e feminismo(s) causam em muita gente. Por isso escolhi o tema como "carro chefe" deste humilde blog que, embora criado há três anos, inicia suas atividades por agora. Já acompanho regularmente vários blogs, de diferentes áreas: sociologia, antropologia, nutrição, maternidade, moda, beleza, política, literatura... Mas só agora resolvi me aventurar na arte de escrever eu mesma sobre temas variados, temas que, muitas vezes, pela falta de espaço de outras redes sociais, acabam não sendo trabalhados com a devida atenção. 

A maioria dos posts será sobre questões relacionadas ao feminismo e às "questões de gênero", no entanto, outras temáticas também serão abordadas, além de experiências extremamente pessoais, como a maternidade, algo que está mudando bastante a minha vida. Minha ideia é escrever sobre a infinidade de coisas que gosto, compartilhar vivências sobre questões diversas, deixar dicas, trazer resenhas de filmes, livros, trocar figurinhas. Para esse primeiro post resolvi começar contando um pouco sobre o título escolhido para o blog, "Minha vida em violeta", sobre uma das primeiras experiências que me fizeram entender o que é ser feminista e que me levam a reiterar o feminismo como meu lugar de fala e de ação (ou seja, meu lugar político).

Desde criança escutava que determinadas brincadeiras, cores, jeitos de agir eram "coisas de menina", enquanto outros seriam "coisas de menino", e já achava estranho essa dicotomia, esse binarismo. Recebi uma criação em que o conectivo ou, rei de estabelecer opostos, não tinha muita vez. Aprendi, desde pequena, que existem coisas que são de seres humanos, ou seja, cabem a homens E mulheres, como por exemplo os afazeres domésticos, a criação dos filhos, as despesas de uma casa, e tantas outras atividades, atitudes, e responsabilidades.

Tive a sorte de crescer num lar em que os papéis de gênero (os comportamentos, atributos, as chamadas "coisas típicas" que relacionamos a um determinado gênero) não eram fixos e, muito menos, eram tratados como tabu nem tinham valor de lei. Cresci brincando daquilo que me dava vontade: brincava de casinha e boneca, mas também jogava queimada, bola, bets, subia em árvores, com o mesmo prazer e a mesma naturalidade. Adorava vestidos, mas também adorava usar boné. Usava rosa e azul com a mesma frequência, sem nunca me sentir uma "outsider" (nos termos do cientista social Howard Becker) por não preferir nenhuma delas (minhas cores preferidas sempre foram o violeta e o preto). 

Mas me recordo de um dos episódios que me incomodou bastante e me despertou para as dicotomias, para a falta de fluidez entre as "coisas de menina" e as "coisas de menino". Acho que foi o primeiro episódio que realmente me deixou em crise, no sentido de produzir inúmeros questionamentos e reflexões. Durante a pré escola eu tinha uma coleguinha, muito querida, muito leal, muito divertida e companheira, que adorava jogar bola e o fazia muito bem. Se divertia correndo, com as brincadeiras "de ação", como pique pega, futebol, queimada. Depois de uma das nossas férias de verão, que na época duravam três meses, ela radicalizou no visual: os cabelos, que três meses antes batiam na cintura, foram cortados bem curtinhos. Isso causou espanto e riso de vários/as colegas, a ponto de uma das líderes da turma (aquelas lideranças do mal, tipo a Maria Joaquina da versão mexicana de Carrossel) estipular que as meninas da turma deveriam se afastar dela, porque "meninas de verdade" não deviam se comportar como ela.

Esse episódio me fez pensar vários dias seguidos sobre o termo "menina de verdade". O que faria de uma menina uma "menina de verdade"? O que uma "menina de verdade" deveria ter e fazer? Usar cor de rosa? Usar vestido? Ter os cabelos compridos? Brincar de boneca e de casinha? Usar esmalte, batom, brincos e outros acessórios/adornos "típicos" de meninas? Onde estava escrito tudo isso? Por que restringir tanto as possibilidades de ser menina? Para mim não fazia nenhum sentido, pois há muitas formas de "ser menina de verdade". Anos mais tarde, já no meu segundo curso de graduação, Ciências Sociais, descobri que minha insatisfação, inquietação e questionamento diante o comentário e às posturas subjacentes a ele tinham um nome: feminismo.

Margaret Mead, antropóloga estadunidense, em um de seus célebres estudos etnográficos, "Sexo e Temperamento", 1935, foi uma das primeiras a compreender o comportamento como uma variável dependente da cultura e não como algo determinado pelo sexo biológico. Ou seja, não existe nada de natural em estabelecer que certos comportamentos são "coisas de menina", enquanto outros são "coisas de menino". É claro que mulheres e homens possuem diferenças morfo-fisiológicas consideráveis, mas a diferença de comportamentos e temperamentos não é algo determinado por cromossomos ou órgãos sexuais. 

E, ao escutar comentários que estabeleciam relações de causalidade entre comportamentos sociais e anatomia ainda durante a infância, é que me tornei mais atenta. As coisas, comportamentos, temperamentos que reputamos como femininos ou masculinos não são um dado da natureza, não são transmitidos pelos genes, como são, por exemplo, a cor dos olhos, são, na verdade, uma construção cultural, que varia de uma sociedade pra outra e também ao longo do tempo e que aprendemos através do processo de socialização. A partir desse dia minha reflexão já começou a ser guiada pelo o que, anos depois, eu poderia definir como questões de gênero. Foi a partir daí que, mesmo sem saber, comecei a escrever a minha vida em violeta.













 











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